Ela acorda cedo e ouve o caminhão do lixo. Corre, corre levando os sacos pretos pingando pelo chão e direto para os seus pés.
A água ferve e o cheiro de café se espalha pela casa. Humm café quentinho. Ela esbarra no pote do café, que lhe cai aos pés. Será um dia daqueles, logo no meu pé esquerdo? Mau presságio.
O ônibus estava lotado. Aquele cheio de suor pela manhã, lhe causou náusea. A musiquinha do celular estilo bonde do tigrão, batia em seus tÃmpanos como se eles fossem um tambor.
Logo na entrada, a recepcionista fala alto “nossa que olheiras”… Como se aquilo fosse o ó do borogodó. Já de mau humor, ela corre direto para sua sala. Nem bem chegou, o telefone toca. É o cliente que ela mais queria que não fosse. Ele detestou seu trabalho e quer que ela refaça tudo desde o começo. Ela queria enfiar a cabeça debaixo da terra, sumir.
O dia se iniciou com a adrenalina fervilhando no sangue. Ela queria jogar tudo aquilo para o alto. A TPM contribuindo para aumentar o quentume de suas faces e o dia nublado e frio lá fora.
A hora adiantada, ela corre para o self-service restando 15 minutos de horário de almoço. A comida fria engasga-lhe na garganta.
De volta ao escritório, o cliente chato retorna a ligar. O layout não ficou bom, achei muito comum, esmere-se mais. O chefe impaciente também cobra-lhe alternativas para não perderem a conta do cliente. Ela perde o controle retrucando palavrões… Foi demitida.
Novamente no ponto do ônibus, desta vez, retornando para casa. O dia torna-se ventania e chuva torrencial. Onde está o guarda-chuva? Nem mal o abriu, ele espalha-se ao vento forte. Encharcada da cabeça aos pés, chega o ônibus. Para variar lotado, janelas fechadas e cheiro de cachorro molhado. Bolsadas, pisadas no pé, mãos nas nádegas e por ai vai.
Finalmente ela aperta o botão de ignição da fúria. Dá chutes, cotoveladas, berra, até que consegue finalmente sair do ônibus.
Em casa e sem luz, ela toma um banho frio. As lágrimas lhe escorrem pelo rosto. O frio lhe toma o corpo já roxo.
Ela berra, chora, quebra a casa toda.
Sentada no chão, o sangue vindo de sues pulsos invade o chão da cozinha. Ela morreu.
Moral da história? Foi suicÃdio. Que moral tem isso? Apenas uma vaga noção de uma incapacidade de controlar a TPM? Um dia de cão? Incompreensão, solidão ou vazio? Talvez tudo isso atrelado ao fato da incapacidade de se reerguer? Não se sabe ao certo os porquês, somento o fato da ficção muitas vezes tornar-se realizade verdadeira e realizades já consumadas sererem a inspiração. Ela morreu por que assim o quis. Perdeu a bonanza do dia seguinte e as novas oportunidades que lhe surgiriam a seguir, como uma proposta de uma agência de nova York e um salário anual de 200mil dólares. Ela morreu em vão.
Moral verdadeira da ficção? Há sempre um amanhã, mesmo que isso custe anos de ônibus lotado, suor, bolsadas e clientes chatos… corra Lisa corra…






