postado por Nick Nicks

“Quem gosta de homem é gay. Mulher gosta mesmo é de dinheiro”. Já ouviu esta frase? 

Vamos começar discutindo este assunto com a história da minha mãe.

Na década de 50 ela entrou na faculdade de Arquitetura. Só tinham 3 mulheres no curso (contando ela) e nenhuma delas terminou. Por quê? Porque mulher querendo fazer carreira profissional era feio. Quase obsceno. E para não contrariar os pais, a sogra, meu próprio pai e toda a sociedade da época, minha mãe largou o curso quando se casou, exatamente do mesmo jeito que as colegas de classe.

Até muito pouco tempo (historicamente falando) as profissões socialmente aceitáveis para mulheres não eram muitas. Professora, enfermeira, costureira, cabeleireira, cozinheira, funcionária de fábrica, secretária, aeromoça… O que mais? Uma tia minha chegou a investir na carreira de artista, mas vocês não têm idéia da fama que ela arrumou por conta disso. E quando meu tio quis casar, adivinha qual foi a condição? Hoje ela é Dona de Casa, como tantas outras daquela época.

Agora, eu pergunto: COMO uma mulher podia garantir o futuro naquela época? Digam pra mim. E não me venham com exemplos de mulheres que enfrentaram o sistema e fizeram carreira ou revolução, ok? Este texto não trata de exceções. 

O que eu quero dizer com tudo isto é que, até muito pouco tempo, a mulher dependia do homem para ter alguma tranqüilidade financeira na vida. E se você fosse mulher naquela época e pudesse escolher entre um cara com dinheiro e um pé rapado, com QUEM você ficaria? Onde você apostaria o futuro dos seus filhos, que eram praticamente obrigatórios?

Sim, as coisas mudaram e hoje uma mulher consegue se virar sem depender financeiramente de um homem. A mudança que a gente vê, no entanto, é só do lado de fora. E DENTRO das pessoas, onde moram os dogmas sociais, até quanto isto mudou realmente? Vocês acham mesmo que a educação dentro dos lares brasileiros não vem com nenhuma mensagem subliminar (ou direta mesmo) baseada nas décadas passadas?

Muitos dogmas sociais ainda persistem sem questionamento e acredito que “casar com um homem que tenha dinheiro” é apenas mais um deles. Sim, existem muheres gananciosas e isto é inegável. Mas também existem os homens gananciosos e, sinceramente, conheço muito mais homens deste tipo do que mulheres. Por que só as mulheres levam a fama de gostar de dinheiro?

Ainda hoje, sem se dar conta, a maioria das pessoas vive de acordo com coisas que foram inquestionáveis por séculos e séculos: mulher tem que casar, mulher tem que ter filhos, homem tem que sustentar a casa, homens não demonstram fraqueza, mulher tem que ser recatada.

Exagero? Ah, tá bom. Então por que a maioria das pessoas fica chocada quando eu digo que não quero ser mãe? E por que as meninas que ficam com vários caras são chamadas de vagabundas? E por que a maioria dos homens que eu conheço não ajuda dentro de casa, mesmo quando os dois trabalham fora? E por que ainda tão poucas mulheres se interessam por política e economia? E por que tantos homens não admitem que uma mulher pague a conta do jantar?

Vou parar por aqui, porque a lista poderia levar uns três dias para ficar pronta. Encerro com ênfase em uma coisa que disse lá em cima: GENTE gananciosa é uma verdade inquestionável. Mulheres gostam de dinheiro é uma afirmação baseada em dogmas e em propagandas idiotas que, por sua vez, também são baseadas no comportamento social da década de 50.

postado por Nick Nicks

“O povo brasileiro é acomodado”, “O povo brasileiro é ignorante por opção”, “O povo brasileiro não se interessa por conhecimento”, “Não tenho paciência com gente burra”.

Acomodação? O que existe de acomodação em acordar as 4 da manhã, pegar umas 3 conduções e trabalhar do outro lado da cidade pra ganhar 600 reais no final do mês? O que existe de acomodação em ter 2 turnos de trabalho para conseguir pagar as contas de casa e ajudar o povo da família que está desempregado? O que existe de acomodação em chegar tarde do trabalho porque o transporte público é um lixo e ainda ter que fazer comida e cuidar da casa?

Ignorante por opção? O que existe de opção no currículo das escolas públicas? E o que existe de opção no background de uma vida? Por acaso nós podemos escolher nossos pais, parentes, amigos ou os acasos cotidianos que mudam nossos caminhos? Podemos escolher nossa capacidade intelectual?

Desculpem, meus caríssimos brasileiros tão inteligentes e especiais, mas acomodação é ficar olhando o Brasil assim de longe, sem noção da realidade, sentado na confortável poltrona da arrogância sem fazer absolutamente nada a não ser alimentar o próprio ego com a pobreza dos outros. Seja esta pobreza material ou de espírito, isto é SOBERBA. Soberba Cultural. Tem muito disso no Brasil.

Sim, existem PRIVILEGIADOS que nasceram sem condições, mas acabaram se interessando pelo conhecimento em algum acaso da vida. Também existem os intelectualmente privilegiados (normalmente chamados de “inteligentes”) e os socialmente privilegiados. Ou você acha que todo europeu nasceu com o dom do interesse? Uma cultura milenar não faz diferença?

Infelizmente, muita gente acha que não. Tenho a nítida impressão de que, para a maioria das pessoas supostamente “esclarecidas”, a história pouco importa - o que me deixa realmente alarmada, já que se não importa para os privilegiados, para QUEM vai importar, não é mesmo? E este é o exemplo que vem de cima, vejam bem.

E outro dia um amigo disse assim:

- Mas eu corri atrás de aprendizado porque eu quis. Eu poderia ter usado a internet só pra ficar no Orkut, mas eu chafurdava conhecimento. Foi opção.

Opção incentivada por uma tia professora. E depois por uma casualidade - um colega de trabalho que sabia demais e acabou incentivando o sujeito. Família E meio.

Falar é fácil. É só colocar uma palavra do lado da outra, formar uma frase e atirar para o mundo. Pensar é que complica. E nenhum livro do mundo, nenhuma enciclopédia, nenhuma biblioteca e nenhuma escola particular, pelo jeito, está fazendo as pessoas pararem para pensar antes de concluir que o povo brasileiro não presta.

Nossos pais, nossa família, o meio em que vivemos, as oportunidades que aparecem no caminho e a POSSIBILIDADE de aproveitar estas oportunidades são apenas algumas das variáveis que levam alguém a se interessar pelo conhecimento, ou não. Mas tem gente que considera simplesmente uma opção. Simples assim: só é ignorante quem quer.

Responda pra mim então: ONDE este país ensina que conhecimento vale a pena? Quanto é o salário de um professor? Vou mais longe: QUANTO vocês acham que ganha um jornalista ou um médico remunerado por convênio? Em compensação, quanto ganha um publicitário? Quanto ganha uma atriz ruim e gostosa que sai na Playboy?

A verdade, caros amigos, é que conhecimento no Brasil há tempos não vale NADA. E se de repente a internet mudou alguma coisa em relação a isto, é uma grande novidade. É uma nova história que começou na década de 90, mas talvez ainda precise de alguns séculos para mudar o povo.

Se você não teve nada, mas nasceu com uma cabecinha abençoada; se você teve a sorte de conviver em algum meio que incentivou seu interesse pelo conhecimento, se pode se dar ao LUXO de dedicar-se a qualquer tipo de estudo em um país de maioria miserável, parabéns. Você é um privilegiado. Pense nisso antes de criticar seu povo e aproveite para pensar bastante antes das próximas eleições - já que você pode.

“Não tenho paciência com gente ignorante”.
Certo. E eu não tenho paciência com arrogância.

Assine nosso Feed!
Adicione ao seu Blog!
Amigosfera:
tags: