Ela morreu

6.ago
2008
postado por Lisa Lips

Ela acorda cedo e ouve o caminhão do lixo. Corre, corre levando os sacos pretos pingando pelo chão e direto para os seus pés.
A água ferve e o cheiro de café se espalha pela casa. Humm café quentinho. Ela esbarra no pote do café, que lhe cai aos pés. Será um dia daqueles, logo no meu pé esquerdo? Mau presságio.

O ônibus estava lotado. Aquele cheio de suor pela manhã, lhe causou náusea. A musiquinha do celular estilo bonde do tigrão, batia em seus tímpanos como se eles fossem um tambor.

Logo na entrada, a recepcionista fala alto “nossa que olheiras”… Como se aquilo fosse o ó do borogodó. Já de mau humor, ela corre direto para sua sala. Nem bem chegou, o telefone toca. É o cliente que ela mais queria que não fosse. Ele detestou seu trabalho e quer que ela refaça tudo desde o começo. Ela queria enfiar a cabeça debaixo da terra, sumir.

O dia se iniciou com a adrenalina fervilhando no sangue. Ela queria jogar tudo aquilo para o alto. A TPM contribuindo para aumentar o quentume de suas faces e o dia nublado e frio lá fora.

A hora adiantada, ela corre para o self-service restando 15 minutos de horário de almoço. A comida fria engasga-lhe na garganta.

De volta ao escritório, o cliente chato retorna a ligar. O layout não ficou bom, achei muito comum, esmere-se mais. O chefe impaciente também cobra-lhe alternativas para não perderem a conta do cliente. Ela perde o controle retrucando palavrões… Foi demitida.

Novamente no ponto do ônibus, desta vez, retornando para casa. O dia torna-se ventania e chuva torrencial. Onde está o guarda-chuva? Nem mal o abriu, ele espalha-se ao vento forte. Encharcada da cabeça aos pés, chega o ônibus. Para variar lotado, janelas fechadas e cheiro de cachorro molhado. Bolsadas, pisadas no pé, mãos nas nádegas e por ai vai.

Finalmente ela aperta o botão de ignição da fúria. Dá chutes, cotoveladas, berra, até que consegue finalmente sair do ônibus.

Em casa e sem luz, ela toma um banho frio. As lágrimas lhe escorrem pelo rosto. O frio lhe toma o corpo já roxo.

Ela berra, chora, quebra a casa toda.

Sentada no chão, o sangue vindo de sues pulsos invade o chão da cozinha. Ela morreu.

Moral da história? Foi suicídio. Que moral tem isso? Apenas uma vaga noção de uma incapacidade de controlar a TPM? Um dia de cão? Incompreensão, solidão ou vazio? Talvez tudo isso atrelado ao fato da incapacidade de se reerguer? Não se sabe ao certo os porquês, somento o fato da ficção muitas vezes tornar-se realizade verdadeira e realizades já consumadas sererem a inspiração. Ela morreu por que assim o quis. Perdeu a bonanza do dia seguinte e as novas oportunidades que lhe surgiriam a seguir, como uma proposta de uma agência de nova York e um salário anual de 200mil dólares. Ela morreu em vão.

Moral verdadeira da ficção? Há sempre um amanhã, mesmo que isso custe anos de ônibus lotado, suor, bolsadas e clientes chatos… corra Lisa corra…

postado por Nick Nicks

“Porque você só está me passando este trabalho agora se ele entrou aqui semana passada?”

Resposta CORP MODE: ON

- Olha, no momento do Kick Off, percebemos algumas pendências estratégicas. E também acontece que o budget não estava de acordo com o escopo e foi preciso fazer uma reestruturação na proposta para reorganizar a locação de recursos. Realmente eu sei que agora o prazo está  justo, mas  este momento delicado exige uma disposição especial para que possamos absorver o impacto da melhor maneira possível.

Resposta SAP MODE: ON

- Olha, no momento daquelas reuniões inúteis, percebemos algumas cagadas fenomenais. E também acontece que o chefe 1 não estava de acordo com o chefe 2 e foi preciso fazer uma gambiarra na proposta para amenizar a Guerra de Egos. Realmente eu sei que agora o prazo está  insano, mas a incompetência generalizada exige o seu na reta para que possamos ficar bem na fita às suas custas da melhor maneira possível.

E se eu estiver errada, que caia um raio sobre a minha cabeça.

Ó… Não caiu.

postado por Nick Nicks

Pelo que eu percebo em ambiente profissional, homens e mulheres são igualmente fofoqueiros quando querem. Só muda o tipo de fofoca e a intenção.

As vezes a fofoca aparece só por diversão, simplesmente porque o caso é engraçado ou por curiosidade mesmo. É a Fofoca Fun.

Outra vezes é na base do desabafo. Alguém está puto com outra pessoa e de repente rola um Surto de Desentupimento da Veia Sacal. Ou seja: ao invés de esperar para desabafar entre amigos, o puto da vida não se aguenta e solta o verbo na primeira oportunidade que aparece, sem critério de ouvinte.

Apesar de ser fofoca, estes dois casos não prejudicam tanto como o que eu chamo de Fofoca Uó.

A Fofoca Uó tem duas intenções básicas:

1. Prejudicar alguém 

2. Compensar um problema de auto-estima.

A fofoca para prejudicar todo mundo identifica. Ou não? Eu, pelo menos, percebo fácil a diferença entre uma Fofoca Desabafo e a maldosa. A pessoa desabafando está puta, ou até parece controlada mas está passando por uma situação de stress.  Não tem nada de pessoal. O que existe é treta profissional temporária ou um evento isolado que irritou o fofoquento. 

A Fococa Uó com intenção de prejudicar não nasce no stress, nem em eventos isolados, mas em diferenças pessoais. Resumindo: eu não gosto de X e falo mal de X para outras pessoas, porque eu quero mais é que X exploda. É diferente de ESTAR puto com X. 

A Fofoca Uó mais comum em ambiente de trabalho, coincidentemente, é a menos identificada. Eu costumo chamar de Fofoca de Auto-Ajuda. Vou tentar explicar:

Nós seres-humanos (incluindo eu) geralmente somos muito rígidos no julgamento pessoal. Não vou entrar em detalhes científicos, mas o fato é que as vezes somos tão rígidos, mas TÃO rígidos, que não conseguimos enxergar claramente a imagem que fazemos de nós mesmos. Porque?

Porque esta imagem é péssima e não saberíamos lidar com ela. Então, a cabeça esconde de nós mesmos como uma forma de defesa, para que nossos dias não sejam miseráveis.

A Fofoca de Auto-Ajuda nasce justamente aí: na falta de auto-estima. 

Para os desavisados, ela parece gratuita. Falar mal da roupa de um, do cabelo da outra, da garota que ficou com não-sei-quem, do sujeito que é anti-social, daquele outro que fala com todo mundo, enfim, qualquer defeito encontrado nos outros serve para nos fazer sentir melhor.

Três casos típicos de Fofoca de Auto-Ajuda:

Ana fica com vários caras do escritório e Maria não ficou com ninguém. Lá no fundo, Maria não se acha atraente. Para não rolar uma crise de deprê que seria insuportável, a cabeça da Maria prefere atacar a Ana. Maria pode até ser muito bonita e parecer super segura. Mas lá no fundo, onde o espelho não alcança, talvez sinta-se incompetente em relação aos homens.

Paulo é um cara simpático e experiente.  Zé, por sua vez, é simpático e talentoso, mas precisa de mais experiência. Quando Paulo sobe de cargo, o Zé sai falando que ele só subiu porque é político. Lá no fundo, onde o espelho não alcança, o Zé não se acha competente. Ao invés de encarar esta insegurança, a cabeça dele prefere atacar o Paulo.

Edu teve uma educação rígida demais e, lá no fundo, não se acha “um bom menino”. Ana ficou com vários caras do escritório. Edu sai falando que Ana é vagabunda, porque assim ele alivia a sensação inconsciente de que não presta. Para não encarar o próprio julgamento, Edu julga e condena Ana.

Deu pra entender mais ou menos? Encontrar defeito nos outros é muito mais fácil do que lidar com a imagem que fazemos de nós mesmos. E muitas vezes, fofocar serve para desviar o foco real do problema -   olhando para os outros e não para dentro.

Fazer o quê para acabar com estas coisas?

Não dar atenção para fofoca de escritório, não passar adiante, desabafar só com seus amigos, procurar  melhor diversão em grupo do que a vida dos outros, chorar de vez em quando e aceitar que se acha um porcaria, para daí poder melhorar. Porque ninguém vai curar uma doença sem saber que tem.

Quanto a amigos que comentam coisas entre si, nem considero fofoca. Amigos compartilham opiniões e eventos cotidianos sem a intenção de espalhar. Todo mundo fala dos outros em algum momento. Eu falo, você fala, ele e ela falam. O segredo para não prejudicar os outros é manter estas coisas em conversas mais íntimas e não sair divulgando feito a revista Caras. 

postado por Nick Nicks

Como diz meu pai (aposentado e feliz como nunca esteve): trabalho é praga de Deus. Começou quando aquele casal pelado comeu maçã e Deus falou “Ganharás o pão com o suor do seu rosto”. Depois disso, Ele expulsou os caras do Paraíso. Veja bem: Paraíso - lugar constantemente comparado com a Costa do Sauípe, Natal, Fernando de Noronha, enfim, nunca vi alguém comparar Paraíso com salas fechadas, iluminadas por luz fria, onde o ar é “condicionado” (Condicionado ao quê, hein? Eu sempre me pergunto isso).

Bom, na realidade, trabalhar poderia ser bem melhor do que é hoje em dia, se não fossem chatices da vida profissional que acabam com a paciência e o ânimo de qualquer um.

Como estou de férias, bem longe de tudo isso, resolvi aproveitar para fazer um desabafo pessoal com algumas das coisas mais irritantes que já presenciei por aí. Talvez você se identifique com algumas delas:

Não é irritante quando…

. A empresa quer que você faça hora-extra sem ganhar nada, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Afinal de contas, se você não está satisfeito, é só pedir para sair!

. Além de não terem pedido por favor, depois que você fez a hora-extra ninguém diz obrigado.

. Você está há anos se dedicando à mesma empresa, sem aumento. De repente, entra alguém para exercer exatamente a mesma função que você com um salário bem maior.

. Você se matou para fazer algum trabalho. Quando tudo dá certo, os méritos vão todos para outras pessoas, como se você não fosse necessária no processo.

. Você teve uma ótima idéia, mas seu chefe fala como se a idéia tivesse sido dele.

. Você saiu de casa no horário de sempre, pegou um baita trânsito por causa de algum acidente, passou o maior estress no caminho e ainda teve que ouvir sermão, como se a culpa fosse sua.

. O ar-condicionado no ambiente de trabalho está sempre ligado no modo Perdigão.

. O computador que você usa no escritório é tão ruim que atrasa o seu trabalho.

. Você avisa que seu computador atrasa o seu trabalho, mas a empresa alega falta de verba para trocar. Pouco tempo depois, você vê que estão trocando o computador do cara que senta na mesa ao lado (Detalhe: o computador dele era bem melhor que o seu)

. Seu chefe acha que engolir mau-humor e grosseria faz parte das suas obrigações profissionais.

. Tem gente que realmente não dá descarga no banheiro.

. Tem gente pegando as coisas que você deixa na geladeira, como se estivesse em casa.

. Tem gente que parece mais preocupada com a vida dos outros do que com o próprio trabalho.

. A empresa contrata alguma garota gostosa e incompetente que atrapalha o seu trabalho.

Esqueci de alguma coisa? Desabafe e lave a alma na área de comentários.

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